Monday, October 16, 2006

Um Dia

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Saturday, September 30, 2006

Tão Grande Dor


"tão grande dor para o pequeno povo" palavras de um timorense à RTP


Timor fragilíssimo e distante
Do povo e da guerrilha
Evanescente nas brumas da montanha

"sândalo flor falo montanha cantos as ritos e a pureza dos gestos ancestrais"

Em frente ao pasmo atento das crianças
Assim contava o poeta Rui Cinatti
Sentado no chão
Naquela noite em que voltara da viagem

Timor
Dever que não foi cumprido e que por isso dói

Depois vieram notícias desgarradas
Raras e confusas
Violências mortes crueldade
E anos após ano
Ia crescendo sempre a atrocidade
E dia a dia --- espanto prodígio assombro ---
Cresceu a valentia
Do povo e da guerrilha
Evanescente nas brumas da montanha

Timor cercado por um bruto silêncio
Mais pesado e mais espesso do que o muro
De Berlim que foi sempre falado
Porque não era um muro mas um cerco
Que por segundo cerco era cercado

O cerco da surdez dos consumistas
Tão cheios de jornais e de notícias

Mas como se fosse o milagre pedido
Pelo rio da prece ao som das balas
As imagens do massacre foram salvas
As imagens romperam os cercos do silêncio
Irromperam nos écrans e os surdos viram
A evidência nua das imagens


Sophia de Mello Breyner Andresen

Tuesday, September 26, 2006

Exílio

É noite e Cyborg dorme o seu sono de morte,
os dois acordes do som, na noite repetem:«Cyb-org,
Cyb-org) Cyb-org) Cyb-org...» e os autómatos crescem
na sombra funérea e ígnea dos luzes horizontes,
alguns ainda acendem os seus fachos claridade
para o descair ligeiro das placas violeta.

Irrompeu a cidade com um tremer de fumo de miragem
e toda se inflamou na sua tristeza sem igual,
com a cor do cimento, do ,branco e das vigas sobre o mar
aqui se implantou, aqui para sempre a luz paragem.
E nunca nenhum deus a jamais tentou vencer
e ninguém sem respeito para ela pode olhar.

É noite agora, o palácio adormecido onde de lado eu estaria
no estar sem espera, fecham as janelas e as grades
dos muros ainda porventura sem lembrança,
mas anoitece ainda a minha infância e sem correr,
eu, fantasma do que fui, procuro estar
na morte tão etérea de uma ave de metal.

Alexandre Vargas
CYBORG

Friday, September 22, 2006


À flor da vaga, o seu cabelo verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda...
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a razão se perde!

Pútrido o ventre, azul e aglutinoso,
Que a onda, crassa, num balanço alaga,
E reflui (um olfacto que embriaga)
Que em um sorvo, murmura de gozo.

O seu esboço, na marinha turva...
De pé flutua, levemente curva;
Ficam-lhe os pés atrás, como voando...

E as ondas lutam, como feras mugem,
A lia em que se desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co'a salsugem.

Camilo Pessanha
Clepsidra

Wednesday, September 20, 2006

Zodíaco


O céu nocturno está cheio de vida terrestre.
As estrelas são flores.
As constelações animais ao espelho.
A memória de que são feitas as estrelas
é a matéria de outro sangue.
Olho o céu de noite como se visse a terra
de dia.
O céu é um estábulo onde a luz é matéria
sublimada.
Os animais da terra comem flores
os do céu comem estrelas. Em vez de sangue
têm luz.

Vejo-me calado entre os homens celestes
que se movem na abóbada como ideias.
O céu também é um chão.
Um chão feito de memória.
Pisam-se lá em cima astros
como se pisam pedras em baixo.

António Cândido Franco
Poesia Digital

Tuesday, September 19, 2006

Bosques


Silvestre significava selvagem nesses bosques primitivos
Que Piero di Cosimo tanto gostava de pintar,
Onde homens nus, ursos, leões, porcas com cabeça de mulher
Copulavam e chacinavam e devoravam-se crus,
Não pensando em domesticar o fogo do relâmpago
Mas, estupefactos, fugiam da chama proveitosa.


Reduzidos a pedaços, que cavalheiros caçadores
Possuem, de aldeias com fornos e pelourinhos,
Ainda lastimam muitos incêndios associais,
Embora a Coroa e a Mitra aconselhem as suas ovelhas
A respeitarem os ritmos enfadonhos da pastagem
E a renegarem a licenciosidade do arvoredo.

Intenções culpadas ainda procuram um hotel
Que não queria detalhes e não forneça nenhuns;
Um bosque é isso e também transmite encanto
E muitos semi-inocentes, incautos,
Culparam os seus rouxinóis que, com tal doçura,
Cantaram a proeza de uma feliz cobiça

W.H. AUDEN
O Massacre dos Inocentes

Saturday, September 02, 2006

Caminho


Tenho sonhos cruéis; n'alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

Porque a dor, esta falta d'harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d'agora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.



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